Outras nádegas

 

quinta-feira, agosto 17, 2006

É que na terça eu estava iluminada, maravilhosa, atenta, foi aí que eu percebi. Mas muito, muito antes eu percebi mesmo é que gente não tem lá gostos muito específicos. Não estou falando de você, claro, você é apaixonado por Platão e adora ouvir Vivaldi e te juro que acho isso muito bonito. Um homem bem ali, sentado no meu sofá dizendo com toda naturalidade pra colocar "aquela" de Vivaldi. Acho lindíssimo. Mas e eles que não conseguem se definir pra mim? Te juro que morro de pena. Mas aí descobri logo os melhores segundos do meu dia. Você, por exemplo, nunca me disse os melhores segundos do seu dia. Estava com medo de morrer sem saber disso e logo que pintou agarrei logo. Acontece sempre quando chego, é quase quando vira amanhã. E é depois que eu tiro as roupas de cima e o calçado. Até ai tudo normal. Mas aí eu me deito, respiro e me preparo. Eu sempre me preparei para os melhores segundos do meu dia, mas foi na terça que eu percebi de verdade que me preparava pra viver. É um suspiro calmo e raso, nada de forçar mais ainda meu corpo. Tudo parado. Ergo-me para frente com todo cuidado e alcanço o fecho do meu sutiã. Logo começa e é muito rápido mas vale a pena porque são os melhores, te juro. Eu me liberto bem devagar e só aí sinto que estou despida do dia todo, da roupa toda, dos oqueis, dos mais e menos, das sirenes, dos berros, bom dias, bom noites e composturas. Os músculos relaxam, minha mente afoga e volta à tona, o corpo inteiro reage bem e depois eu sinto o tempo e ele é muito bom comigo. Aí eu passo a mão em volta de mim, tateio as marcas da lingerie na pele e passo a procurar todas as marcas do dia no meu corpo. As costuras da calça na minha perna, o lábio cansado por causa do batom, os pés amassados e brancos, o fraco do perfume nas axilas. E eu procuro onde o perfume perseverou mais e se a sensação de uma faixa apertando minha testa persiste. Eu ando sentindo dessa. E vez ou outra levo minha mão na altura da cabeça pra tirar logo essa faixa preta. Nunca tem nada e sempre me assusto com esse gesto. Mas às vezes dá mesmo uma imensa vontade de casar. Isso é super normal, me garantiram. E acordar com chinelos ao pé da cama e despertador. E o controle remoto jogado no chão, jornal e pijamas bem confortáveis, levantar devagarzinho com medo acordar o outro, sem o pavor de não tocá-lo nunca mais. Mas também tem aquele quarto simples, onde o lençol não suporta mesmo permanecer intacto, e a carteira de cigarros sobre a cabeceira, a bala de menta e as chaves do carro. Corpos nus e o cheiro de sexo. A carteira dele, a bolsa dela, a sandália salto 15, o vestido brilhante, a lingerie de festa e o imprevisto da ocasião


link | posted by Simy at 12:43 PM |


3 Comments:

Anonymous pecus commented at agosto 17, 2006 2:20 PM~  

Não se preocupa que essa vontade de casar passa logo.

Anonymous Yvonne commented at agosto 17, 2006 3:40 PM~  

Simy, você está escrevedo cada vez melhor. Lindo demais esse texto. Beijocas

Anonymous edu commented at agosto 18, 2006 3:02 PM~  

Os melhores segundos do meu dia são quando encontro coisas assim como seus posts pela frente. De verdade. Ou quando beijo na boca, claro...

Mas e este spam aqui em cima?

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